Terça-feira, 29 de Junho de 2010

Olivença, "entre Espanha e Portugal"? (II): n'"A Bola"

Também n'A Bola (impressa):

 

Olivença que gosta de nós, Olivenza que puxa por eles. Na véspera do Portugal-Espanha, "A Bola" foi à fronteira recuperar um diferendo com quase dois séculos. O sangue e história se cruzam, por quem vão gritar hoje os oliventinos?

 

Meia Canada: português, viúvo e comunista. Foi difícil encontrar um português em Olivença, mas valeu a pena. Um jovem de 82 anos.

 

Muito respeito por Portugal! Já lá vai o tempo das guerras verbais entre as duas selecções. Jogadores espanhóis estão conscientes das dificuldades que os esperam no jogo de hoje. Cristiano Ronaldo, apesar da sua classe, não é a única preocupação.

 

«50-50? Espero que seja um bocadinho mais para a Espanha!» José Antonio Camacho anda no Mundial e torce pelos dele; «O Benfica está bem, não está?»...

 

Carlos Luna mandou-nos o texto integral. Aí vai:

OLIVENÇA QUE GOSTA DE NÓS / OLIVENZA QUE PUXA POR ELES

(fotografias: três pequenas, com a legenda: "Benito Silva, um espanhol de pai português e coração dividido; a calçada portuguesa numa cidade espanhola e uma ponte cheia de Histórias; outra fotografia, grande, com placa com dupla toponimia: "Plaza de España / Antigo Terreiro do Chão Salgado", com a legenda "Sinais da História: sempre espaço para o nome da praça em português, que não se apaga")


Na véspera do Portugal-Espanha, A BOLA foi à fronteira recuperar um diferendo com quase dois séculos O sangue e história se cruzam, por quem vão gritar hoje os oliventinos?

Por Gonçalo Guimarães


OLIVENÇA - «Chamo-me João», solta Juan num português arranhado mas bem perceptível. «Aqui falamos uma mistura de espanhol e português», acrescenta. Estamos na Plaza de España, ironicamente forrada com calçada portuguesa. Acabámos de chegar e, de acordo com a placa que vimos plantada no final da ponte sobre o Rio Guadiana, que liga Elvas a Olivenza, estamos em Espanha. Será?


O diferendo entre Portugal e Espanha quanto à soberania de Olivença (Olivenza em castelhano) arrasta-se há quase dois séculos [ver peça sobre a história]. Desde 1817 que Portugal aguarda a devolução de um território que é seu por direito mas que se mantém sob administração espanhola, um incómodo diplomático ainda que sem divergência pública capaz de afectar a relação entre Portugal e Espanha. Daí que a Olivença portuguesa continue a ser a Olivenza de Espanha.


NÓS PAGÁMOS A PONTE!

A ponte acima referida, construída em 2000, ao lado das ruínas da Ponte da Ajuda, foi paga pelo Estado português, na mensagem clara de estar a ligar duas cidades lusitanas, mas na definição das fronteiras entre os dois países (primeiro em 1864, depois em 1926), a zona de Olivença ficou por definir. A questão continua pendente e assim promete ficar. Até porque o tema, pela sua delicadeza, é evitado. De quando em vez, sem ruído, Portugal aviva a memória dos vizinhos sobre a questão de Olivença. Uma guerrinha que em nada afecta a amizade e as parcerias entre os vizinhos em matérias como, por exemplo, o TGV ou a organização do Mundial 2018 ou 2022. Dois séculos é, para muitos, tempo suficiente para se desistir de uma causa que o primeiro-ministro José Sócrates chegou a classificar de «folclore», mas para outros é antes tempo demasiado de conivência com uma situação reveladora da incapacidade portuguesa de reclamar a viva voz o que é seu.


NEM UMA BANDEIRA LUSITANA

Não é preciso passar muitas horas na cidade para perceber que há muito mais de Olivenza do que de Olivença, mesmo que o passado e as raízes estejam lá, num vertiginoso cruzamento de sangues, culturas e costumes. Em pleno Mundial, observamos dezenas de bandeiras espanholas penduradas nas varandas do centro. Portuguesas? Nem uma para amostra. Portugueses? É procurar agulha num palheiro. E as aquisições são quase todas recentes, fruto de namoros e casamentos luso-espanhóis. Até à década de 1940, os lusitanos ainda representavam a maioria em Olivença, mas com o regime franquista e a proibição de utilização da língua de Camões, esta foi desaparecendo. Hoje só os mais idosos a falam. Aqui sentem-se espanhóis, gostam de ser espanhóis e não querem pertencer a Portugal, ainda que admitam um certo carinho, só isso.


SE PUDESSEM PASSAR OS DOIS...

Juan está à conversa com os amigos Vitorino e Mariano e começamos a falar do Mundial, do Portugal-Espanha de hoje. Não se sente ponta de rivalidade no discurso e este trio até aposta numa decisão nas grandes penalidades, com a sorte, se possível, a sorrir à Espanha. Os nomes de Villa e Ronaldo aparecem inevitavelmente à baila quando se fala dos desequilibradores. Mas não só. «Vocês têm lá um miúdo que joga a defesa-esquerdo... Coentrão é isso. Mas que jogador! Já li hoje que vai para o Bayern», atira Fernando Silva Pereira, 83 anos - nesta altura já nos juntámos a outro grupo na mesma praça. Fernando está acompanhado de José Silva Figueiredo, 75 anos, e Narciso Ferreira Cordeiro, 83. Por aqui mantém-se o desejo de um desfecho favorável à Espanha, desta vez sem recurso a penalties. Na esquina cruzamo-nos com António Piteira e Juan António Gadella Martínez (tornou-se de imediato no nosso simpático cicerone), rapazes mais para a meia idade. «O que gostávamos era que pudessem passar os dois aos quartos. Somos espanhóis, torcemos pela Espanha, mas gostamos de Portugal, o carinho é enorme. No fundo, sentimo-nos um pouco portugueses também. Para nós não há fronteiras e não importa a que Estado pertencemos», explica-nos Gadella, com uma curiosidade: «Aqui há muitos simpatizantes do Benfica, sabia? Quem gosta do Real Madrid normalmente também gosta do Benfica».


O BENTO QUE VIROU BENITO

Junta-se à nossa tertúlia Bráulio Benito Silva, 73 anos. O pai era português, natural de Cuba do Alentejo. Chegou a Olivença em 1925, apaixonou-se e, para casar, teve de ir e voltar a Cuba para tratar da papelada necessária. Um percurso de centenas de quilómetros cumprido... a pé. «Os tempos eram outros», recorda, de tal forma que o apelido do seu progenitor, que faleceu dois meses antes de completar cem anos, não era Benito mas sim Bento. O nome dos filhos teve de sofrer uma adaptação castelhana para Benito. «Apesar de o meu pai ser português, estou a torcer por Espanha, não me leve a mal...»


Ao almoço conhecemos António Mira, oftalmologista reformado, 67 anos, um «apaixonado por Portugal» mas que garante nada saber nem perceber sobre futebol, e o estudioso Francisco González Santana, fundador do museu etnográfico de Olivença, um simpático jovem de 79 anos que nos disse, em surdina, que «Portugal vai ganhar». O dono do estabelecimento, Juan Dosca, fez uma comparação curiosa, em síntese. «Gostamos de Portugal mas torcemos pela Espanha. É como ter dois amores, a mulher e a amante.» Pergunta que se impunha: quem é a esposa legítima e a amante no meio desta história? «Isso já não sei, isso já não sei...», foi a resposta. E assim nos despedimos com uma valente gargalhada, como convinha.


ABERTURA À "PORTUGALIZAÇÃO" DEPOIS DA "ESPANHOLIZAÇÃO"
Em 73 ruas foi recuperada a toponímia lusitana no dia 12 de Junho; cultura promovida
Por Gonçalo Guimarães

OLIVENÇA - Desde a década de 80 que o Ayuntamiento de Olivenza optou por uma política de (re)aproximação a Portugal. Foram firmados, por exemplo, protocolos de geminação com Leiria (1984), Portalegre (1989), Elvas (1990), Cadaval (2007) e Vila Viçosa (2007). Foram recuperados vários monumentos portugueses, foi constituído um Arquivo Histórico com o apoio das entidades lusitanas e o português é língua opcional nas escolas e faculdades do município. Na terra onde as brochuras turísticas são bilingues e onde existe uma Santa Casa da Misericórdia desde 1501, foram recentemente recuperados, a 12 de Junho, os antigos nomes em português de 73 ruas, calçadas e becos, numa iniciativa que partiu da associação cultural Além Guadiana, criada com o intuito de promover a cultura portuguesa em Olivença e que organizou, no mesmo dia, a primeira edição das Lusofonias, certame que pretendeu ajudar a reavivar as raízes portuguesas de Olivença. Num dia totalmente dedicado a Portugal, até foi projectado o filme “Leão da Estrela”.


MEIA CANADA: PORTUGUÊS, VIÚVO E COMUNISTA

(grande fotografia de Meia Canada, com a legenda: "Senhor Meia Canada vai ver se, no lar, convence as enfermeiras a ver o Portugal-Espanha")

Foi difícil encontrar um português em Olivença, mas valeu a pena. Um jovem de 82 anos.
Por Gonçalo Guimarães

OLIVENÇA - José António Assunção Meia Canada tem quase 82 anos, ficou viúvo há 12 e mora no lar de Olivença. «Tenho uma reforma de 600 euros, não é muito mas chega para mim», partilha, apresentando-se como «comunista português, espanhol e francês», que é como quem diz, «comunista em qualquer parte do mundo». É natural de Vila Boim, concelho de Elvas. «Foi uma aventura até chegar a Olivença. Trabalhava na fronteira, a guardar vacas, descalço, com o meu pai, e um dia um senhor espanhol trouxe-me para Espanha para domar cavalos. Por cá fiquei, desde 1944. Uma vida», conta, pouco incomodado com a divergência em torno de Olivença, de onde era natural a sua mulher. «É indiferente. O importante é que somos todos irmãos, eu vejo-os e
sinto-os como tal, embora nunca tenha abdicado de ser português», vinca, sacando imediatamente do bilhete de identidade lusitano. E até aceita com fair play que os oliventinos queiram permanecer nas mãos de Espanha. «Eles vivem melhor do que nós. O nosso país é pobre, pequeno e tem muita gente a gamar, ao passo que a Espanha é maior e mais rica, por isso nota-se menos o gamanço», explica, lembrando que o seu apelido é um termo relacionado com o pastorio e que tem três irmãos em Portugal: «Um mora na zona de Benfica, outro em Sintra e o outro casou-se com uma garrafa de vinho». Meia Canada, aqui conhecido por Portu (de portuga) revelou-se um conversador nato e bem preparado, inclusive na área do futebol. Primeiro olhou para as enfermeiras espanholas que o rodeavam, mas lá respondeu sem medo. «Claro que vou torcer por Portugal. Mas vou ver o jogo trancado no quarto porque aqui no lar são muitos contra um, não posso facilitar. A Espanha tem boa equipa e o Cristiano Ronaldo tem poucos na nossa equipa que o acompanhem, mas vamos ganhar 1-0, escolha você quem marca», rematou, deixando claro que não tem preferência clubista em Portugal. «Nem Benfica, nem Sporting, nem FC Porto. A minha única equipa é o PCP». Ainda convidámos o nosso amigo Meia Canada para almoçar, mas explicou-nos, com muita pena, que ia demorar tempo a conseguir o visto de saída temporário do lar. Fica para a próxima.


PROFESSORA DE ESPANHOL, ALUNA DE CAMÕES

(fotografia de Raquel Gadelha Martínez, com a legenda "Raquel Martínez, uma beleza ibérica")

Vai viajar para Lisboa para aprender português; «2-1 para a Espanha» é a aposta para hoje.
Por Gonçalo Guimarães

OLIVENÇA - Raquel Gadella Martínez, filha de Juan Gadella Martínez [ver peça principal] tem 34 anos, é professora de espanhol e estuda português na Escola de Línguas de Badajoz. Está no nível intermédio, o que significa que leva três anos de aprendizagem no idioma de Camões, facto que já lhe permite dar aulas aos mais pequenos, no instituto de ensino onde trabalha. Está de partida para Lisboa, onde ficará durante um mês para aperfeiçoar a matéria na Universidade Clássica. «Decidi aprender a vossa língua porque Olivença já pertenceu a Portugal e a cultura portuguesa está muito presente, faz parte de nós e admiro-a muito», explica, hesitando no momento de avançar com um prognóstico para o jogo de hoje. «2-1 para a Espanha, assim vocês também marcam um golo...»


A HISTÓRIA

Por Gonçalo Guimarães

OLIVENÇA - As tropas espanholas, ajudadas pelas francesas, invadiram o reino de Portugal em 1801 - há muito que França e Espanha planeavam a investida, e o pretexto foi o facto de Portugal ser aliado da Grã-Bretanha - tendo conquistado de imediato, e sem resistência, várias praças alentejanas, entre as quais a de Olivença. Sem capacidade para oferecer resistência ou reagir, Portugal viu-se obrigado a assinar, de forma humilhante e sob ameaça, o tratado de Badajoz, no mesmo ano, no qual cedia a Espanha o território de Olivença e respectivas povoações desde o Rio Guadiana, que ficou assim a dividir os dois reinos naquela região. Seria preciso esperar pelo Congresso de Viena, em 1815 (os espanhóis só assinariam a respectiva acta em 1817), para que, formalmente, Portugal recuperasse a soberania sobre Olivença, que os espanhóis se comprometeram a devolver de imediato. Mas tal nunca aconteceu. Durante o regime franquista (1939-1976), o uso da língua portuguesa foi mesmo proibido, a toponímia portuguesa desapareceu e até os nomes dos habitantes portugueses foram alterados para castelhano. Procedeu-se a uma verdadeira colonização e aculturação de Olivença. Em 1944 foi criado o Grupo dos Amigos de Olivença - o general Humberto Delgado foi um dos sócios-fundadores - entre outras associações que foram nascendo em nome da defesa da causa portuguesa. No final dos anos 80, início dos anos 90, sobretudo com a criação do Espaço Schengen e o desaparecimento das fronteiras físicas, a cultura portuguesa de Olivença reconquistou finalmente a liberdade perdida, mas era tarde de mais, já com os descendentes de portugueses em franca minoria. Olivença estava espanholizada de forma irremediável e sem vontade de regressar para os braços da nação lusitana.

 

http://www.abola.pt/

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Publicado por AG às 16:30
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