Quarta-feira, 30 de Junho de 2010

Mais sobre o jogo (situações ibéricas) n'"O Jogo"

Uma espanhola fez a festa na Aldeia da Ponte

Os habitantes de Aldeia da Ponte, na Guarda, convivem quase diariamente com os espanhóis, por isso garantem que a derrota portuguesa no Mundial da África do Sul não vai "arrefecer" o relacionamento entre os povos de ambos os lados da fronteira. Apesar de em matéria de futebol avisarem que "cada um defende os seus", assistiram ao resultado do final do jogo entre Portugal e Espanha sem ressentimentos em relação a "nuestros hermanos".

 

Nesta aldeia a 2,5 quilómetros da fronteira, o jogo entre ambas as selecções foi visto por cerca de 30 residentes, incluindo uma mulher espanhola, no "Café Bar A Ponte". Pilar Fernandes, 40 anos, de bandeira espanhola ao pescoço, garantiu que estava "satisfeita" com a vitória do seu país, mas assegurou à Lusa que "se Portugal tivesse marcado, também ficava satisfeita". A cinco minutos do fim, apontou para as 'vuvuzelas' e perguntou a duas jovens: "Então, não tocais as cornetas?" Ao balcão, com uma mini na mão, o jovem Tiago Nobre lembrou que "era o primeiro jogo que Espanha ganhava a Portugal". "Se Portugal ganhasse o jogo, íamos para Espanha beber um copo. Como perdeu, vamos para casa, sossegados", disse.

 

No exterior do café, Joaquim Fernandes mostrava o seu carro com matrícula francesa, que ostenta duas bandeiras - uma portuguesa e outra espanhola. "Para nós tanto nos dá. Aqui não somos portugueses nem espanhóis, somos raianos", assumiu. No interior, os nervos de quem assistiu ao jogo na televisão saltaram a olhos vistos e até houve quem apontasse que Cristiano Ronaldo "podia ter feito mais". Sem rancores, José Prata, outro habitante de Aldeia da Ponte, que "sofreu" muito ao longo dos 90 minutos, deixou escapar que "cada um torce pelo seu país". "Mas damo-nos bem", garantiu. "Todos os fins-de-semana vêm cá espanhóis das aldeias vizinhas beber um copo", contou.

Galegos ao lado de Portugal

Houve quem viesse do outro lado da fronteira só para dar cor à festa portuguesa. Sim, espanhóis. Ou melhor: galegos que não gostam de Espanha e vieram a Valença do Minho só para "dar muita força" à equipa das Quinas. "Costumamos dizer que temos duas selecções: a da Galiza e aquela que jogar contra Espanha, seja ela qual for", disse à Lusa, Suso Sanmartín. Com a camisola de Portugal vestida, este professor de 38 anos, morador em Santiago de Compostela, confessou que não gosta de futebol e nem sequer foi capaz de dizer o nome de um jogador português. "O nosso jogo é outro", ironizou. O grupo, constituído por cerca de 20 galegos, juntou-se no miniestádio montado junto à Câmara de Valença. Houve gaitas-de-foles, bandeiras da Galiza e gritos de "Viva Portugal" e "Selecção Nacional da Galiza e Portugal".

 

Menos radicais foram Frederico e Nuria, namorados, que estiveram a ver o jogo com o filho dele, de 10 anos. Frederico é português, Nuria é espanhola, estiveram divididos por 90 minutos, mas tinham uma decisão tomada: a partir de agora, irão todos apoiar a Espanha. O problema é que Frederico tem agora umas contas para pagar. Antes do jogo, tinham apostado que quem perdesse faria tudo o que outro pedisse durante um dia. Ele sonhava com uma boa massagem e imaginava a companheira a carregar todo o material do surf. Mas perdeu e espera pelo castigo, que Nuria manteve em segredo, apenas revelando que o obrigará a levantar-se mais cedo hoje e a entoar o hino da Espanha. "O resto é segredo, mas olhe que sou exigente", brincou.

Olivença esqueceu-se da história e foi apenas Olivenza

 

Há 200 anos, talvez a história fosse diferente. Mas a verdade é que, actualmente, ninguém em Olivença torceu por Portugal. A pequena cidade que Espanha "roubou" às nossas fronteiras no início do século XIX vestiu as cores de La Roja e festejou o triunfo na partida de ontem. Mal soou o apito final do árbitro, os habitantes de... Olivenza saíram à rua para festejar, a pé e em caravana automóvel, a vitória e a passagem aos quartos de final.

 

Em declarações à agência Lusa, Pablo Benitéz, um oliventino de 18 anos, manifestou a sua simpatia por Portugal, mas frisou que a Espanha jogou melhor, sobretudo no segundo tempo da partida. "A Espanha esteve melhor no jogo. No entanto, tenho pena de Portugal sair do Mundial, uma vez que somos vizinhos e compartilhamos a Península Ibérica", disse, equipado a rigor com a camisola da seleção espanhola.

O duelo futebolístico foi seguido nos bares da vila, com cânticos de apoio à "La Roja", tapas, "tintos de verano" e cervejas. Durante a partida, foi possível escutar algumas provocações a Portugal, mas o mote que prevaleceu foi, sobretudo, o tradicional "Y viva la España".

Outro adepto, Angel Rodriguéz, admitiu ter "respeito" por Portugal, devido às marcas históricas lusas em Olivença, mas a seleção do seu país, destacou, está "sempre na frente". "Tenho muito respeito pela parte cultural portuguesa em Olivença, mas a única coisa que me chama a atenção na seleção portuguesa é o [Cristiano] Ronaldo", brincou.

 

http://www.ojogo.pt/26-181/artigo872351.asp
Publicado por AG às 19:14
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