Quinta-feira, 11 de Outubro de 2012

Acetre: 36 anos da Raia

Acetre - Grupo oliventino canta há 36 anos um «hino à história de Portugal e Espanha»

É com emoção que Ana Márquez, uma das duas vocalistas dos Acetre, fala sobre o trabalho do grupo oliventino de música folk, que iniciou a carreira em 1976. Raízes tradicionais mesclam com as sonoridades do século XXI, «mantendo a tradição e a identidade locais». O repertório apresenta «uma dualidade de culturas», portuguesa e espanhola, numa espécie de «hino à história de Portugal e Espanha» separados, «apenas pela linha fronteiriça do Guadiana».

Ana Clara; Fotos - Jorge Armestar | terça-feira, 9 de Outubro de 2012


A conversa com Ana Márquez, uma das vocalistas do grupo oliventino Acetre, decorreu em pleno centro histórico de Olivença, horas antes de a igreja manuelina de Santa Maria Madalena ter conquistado o título de «melhor destino de viagem e passeio em Espanha».

Estava dado o mote, através da cultura, para conhecer as raízes do grupo que nasceu em 1976, conhecido pelas sonoridades arreigadas à música folk e tradicional. O agrupamento conta actualmente com nove elementos, a maioria natural de Olivença. Ana Márquez fala-nos, com orgulho, do colectivo que integra. Da formação inicial, conta, restam dois elementos.

Ao longo destes 36 anos de existência, e várias vezes premiados, os Acetre lançaram oito álbuns de originais. Neles é possível percorrer «pindongos, tonadas festivas e alboradas extremenhas». Mas também há fados e corridinhos portugueses, «trabalhados em arranjos com influências de outras músicas do mundo», num «hino à história de Portugal e Espanha, países apenas separados pela linha fronteiriça do rio Guadiana».

«Uma mistura cultural onde a identidade portuguesa não é esquecida», refere Ana Márquez, que desfaz o conceito por detrás do nome que dá fama ao grupo. «Acetre significa uma espécie de balde que se usava antigamente para tirar água do poço. Em 1976, quando o grupo foi criado, a ideia era fazer renascer a tradição, nomeadamente no que respeita às raízes portuguesas em Olivença».

O primeiro álbum remonta ao ano de 1985 e intitula-se «Extremadura en la Frontera». Desde então, o grupo nunca mais parou de trabalhar os sons da música folk e das raízes locais: em 1987 editaram «Ramapalla», em 1989 «Acetre» e em 1994 saiu para o mercado «De maltesería». Em 1999 foi a vez de «Canto de gamuzinos», em 2003 «Barrunto», em 2007 «Dehesario» e em 2011 lançaram o último trabalho intitulado «Arquitecturas Rayanas».

«Os últimos três discos são, sem dúvida, uma viragem, porque cantamos o folk de forma mais moderna», afirma a vocalista. A também professora de Inglês e Português revela que «originalmente o grupo é de puro folk». Mas desde 1999 que «apostamos na modernidade deste folk tradicional» e «sempre com influências portuguesas».

Ana Márquez entrou para o grupo há 11 anos, cumprindo um sonho antigo, já que sempre gostou de cantar e sempre se interessou pela história de Olivença. E sublinha, por isso, a importância de «dar continuidade» a um grupo que sempre «tentou unir os dois lados do Guadiana».

E adianta que o álbum «Dehesario» é um dos melhores da carreira do grupo, já que «apresenta canções em castelhano e português, destacando-se a suavidade instrumental produzida pelos nove músicos que compõem os Acetre.

«Amor entre Portugal e Espanha:
Ana Márquez destaca ainda o último trabalho, «Arquitecturas Rayanas», composto por 13 músicas, sobretudo por ser um «álbum que se distingue pela mensagem que o grupo pretende passar. A ideia é estabelecer pontes entre Olivença e Portugal».


«Falo concretamente da música “As pontes”, alusivas às pontes existentes sobre o Guadiana em Olivença. Este é um tema que fala do amor entre os dois países, cantado em português e castelhano. Nos concertos dizemos que é uma representação do nosso sentimento e da necessidade das pontes com o país vizinho».
Para além de actuarem um pouco por toda a Espanha, os Acetre têm percorrido também a Europa, desde Inglaterra à Grécia, passando pela Suíça e Portugal, onde, nos últimos anos actuaram no Festival Músicas do Mundo, em Sines, e no Festival Sete Sóis Sete Luas.

Ana Márquez não tem dúvidas: «os Acetre definem a identidade dos oliventinos, a sua tradição, cultura e gentes. Sempre com Portugal no coração. O facto de cantarmos nas duas línguas deve-se ao facto de queremos passar a mensagem de que não podemos esquecer a língua portuguesa, tão esquecida nos últimos anos em Olivença».

E acrescenta que a música tem «esta capacidade de trazer a identidade ao presente, com modernidade, e passar às gerações futuras a necessidade de procurarem a busca constante pela identidade. A identidade dos oliventinos que está, sem dúvida, na cultura portuguesa».

Uma das características do grupo é também a panóplia de instrumentos tradicionais que utilizam, desde a guitarra portuguesa, a viola, o bandolim, o clarinete, vários tipos de flautas, o violino, piano e bateria.

Apesar de os tempos serem de crise, a vocalista dos Acetre realça que o que «ganham nos concertos chega para cobrir as despesas e fazer os discos», adiantando que contam ainda com o apoio do Ayuntamiento de Olivença, que faculta um espaço para os ensaios.

«Continuamos a batalhar não só pelo amor à música, mas igualmente pela nossa identidade e tradições. Enquanto valer a pena, estaremos cá», conclui Ana Márquez.
 
Sentimo-nos: raianos
Música: raiana
Publicado por AG às 19:58
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