Domingo, 10 de Agosto de 2008

O PORTUGUÊS OLIVENTINO NÃ É UM CHAPURRÊO!

Estamos cansados de ouvir que o nosso português nã é português, mas um "chapurrêo". Se nã é português, será francês, será chinês, será japonês, será coreano?

Mapa de Lindley Cintra, muito conhecido, onde está incluído o português de Espanha: fala, oliventino, galego (embora com medo), etc.

Fonte: http://o-ceu-sobre-lisboa.blogspot.com/2004/04/este-mapa-s.html

 

 

ISTO É DA EXCLUSIVA RESPONSABILIDADE DE MANUEL SÁNCHEZ. Se houvêri críticas, acêto-as. A ASSOCIAÇÃ ALÉM GUADIANA NADA A VÊRI! Isto é um blogue, pá, e não a página uébi!

 

1. Língua, dialecto, chapurrêos e outras coisas.

Dizia Ferdinand de Saussure: “Las lenguas no tienen límites naturales (título de parágrafo). Es difícil decir en qué consiste la diferencia entre una lengua y un dialecto. A veces un dialecto lleva el nombre de lengua porque ha producido una literatura; es el caso del portugués y del holandés”[1]. O linguista Manuel Alvar tem um artigo célebre[2] onde nos ilustra sobre o que são os dialectos. Mas o melhôri dele é que acabamos sabendo uma coisa que nos pode desiludir e também iludir. O quê? Que qualquêri língua pode ser considerada dialecto e que qualquer dialecto pode ser considerado língua. Isto é, que nã há um critério linguístico pra os diferenciári! Aqui também insiste muito o professor Juan Carlos Moreno Cabrera, e tem razão: quase sempre os critérios são políticos (demasiado arbitrários atã). Portanto, onde estamos? Voltemos pra trás. Língua e dialecto. Há quem diga que pra saber se uma fala é língua ou dialecto tem que ser confrontada com outra e logo se vê. Por exemplo, se um argentino fala espanhol ou castelhano com um mexicano, e se entendem, quer dizer que os dois falam a mesma língua. Prémio! Os dois falam espanhol. Pois claro! Pra isso tanta cerimónia, compadre? Que parvoèrada, nã? Nã!, porque, e se quem fala é um galego de Ponte Vedra com um português de Viseu (ou de Almeirim, ou do Alandroáli, ou de Alcoutim)? Claro, é que o galego e o português são a mesma língua: esses falam galegoportuguês ou portugalego! Grandes vultos da linguística já desapar’cidos (Ferdinand de Saussure, Joan Coromines, Manuel Rodrigues Lapa, Ricardo Carballo/Carvalho Calero...) pensavam que o galego e o português (geograficamente e sincronicamente) eram dois dialectos duma mesma língua. É claro que, diacronicamente, o português é um dialecto do galego, que é um dialecto do latim hispânico. Mas aqui tratamos agora dos dialectos diatópicos (geográficos) de hoje. Mas, compadre, e se eu falo catalão com alguém que fala aragonês e nos entendemos, cada um na sua língua? Ah!, atã isso quer dizer que sã dois dialectos da mesma língua! E se o aragonês fala com um castelhano? E o castelhano com um asturiano? E o asturiano com um galego? Ou galega, que todos sã machos, compadre! Lêam outra vez a nota 1.

 

2. O galego, o português, o galegoportuguês...

Quando se formaram as línguas românicas da península Ibérica, fizeram-no a partir do latim hispânico. O catalão talvez a partir do latim gálico, mas disso nã vamos discutir aqui, compadre (ou comadre). Temos, do oeste ao leste, galego, asturleonês, castelhano, navarr(in)oriojano, aragonês e catalão. GALEGO: expandiu-se pra o súli: temos o galegoportuguês. ASTURLEONÊS: expandiu-se pra o súli, e temos agora o asturiano (nas Astúrias), o leonês (no antigo reino de Leão), o mirandês (na Terra de Miranda, onde é língua oficiáli) e o estremenho3 em Cáceres; portanto, o asturleonesmirandesestremenho; podem ser considerados uma língua com quatro dialectos ou quatro línguas com a mesma origem. CASTELHANO e NAVARR(IN)ORIOJANO: temos o espanhóli ou castelhano. ARAGONÊS: ficou no Norte de Aragã (a não confundir com o espanhol de Aragã). CATALÃO: expandiu-se pra o súli: temos o catalão, também chamado valenciano e doutras manêras.

 

3. O português de Espanha.

O português de Espanha é falado:

a) Na Galiza, nas Astúrias (entre os rios Eo e Návia) e no Berço (Leã), onde se chama galego.

b) Em Hermisende/Ermisende/Ermesende (Samora) e Alamedilla (Salamanca).

c) Na Estremadura: nos "Três Lugares” (em Cáceres): o lagarteiro das Elhas, o manhego de São Martim de Trevelho e o valverdeiro de Valverde do Fresno (ou del Fresno); em Cedillo, em Ferreira (ou Herrera) de Alcântara e em Valência de Alcântara (também Cáceres) e na Codosera, Olivença e Táliga (Badajoz).

 

4. O português alentejano oliventino.

O português oliventino é alentejano. Ninguém duvida isso. Mas porque será que alguns dizem que é um “chapurrêo4”? Crêo que é por medo. Por medo de que, compadre? Alguns poderosos inventaram isso por medo de que os oliventinos pensem que falam português e que são portugueses. Ah!, claro, compadre! Quer dizer que os galegos são portugueses? Nã, compadre, os galegos sã espanhóis e bem espanhóis! Por isso inventaram uma ortografia completamente incoerente, espanhola, pra a língua galega (ou portuguesa, ou galegoportuguesa) da Galiza. Ah! E por isso dizem que nos Três Lugares falam galego (no sentido desse galego ou xalexoespañol inventado), pra que nã sejam amigos dos portugueses. Claro, claro. É pena mas é assim. Atã o nosso português? O português nosso, o de Olivença, é alentejano. O português alentejano é um dialecto bem diferenciado dentro de Portugal, e faz parte, claro, da língua portuguesa de Portugal ou europêa. É língua? É. O português alentejano oliventino diferencia-se porque tem superstrato espanhóli. E isso que é, compadri?! Quer dizer que o português era a língua dos oliventinos e por cima foi posto o espanhóli; isto é, que é um português alentejano com influência posterior do espanhóli. E que fazemos com o espanhol oliventino? O mesmo podemos dizer do espanhol oliventino: espanhol estremenho com substrato português. Outro palavro? Quer dizer que o espanhol estremenho oliventino tem influência do português, mas não por cima: por baixo. O espanhol é como um cobertóri e o português o lençóli. Pra efêtos práticos, podemos dizer que o português e o espanhol são as línguas de Olivença, que o português alentejano e o espanhol estremenho são os dialectos e que o português alentejano oliventino e o espanhol estremenho oliventino são os subdialectos. Nada de chapurrêos. Porque depois, quando os poderosos inventam isso dum “achapurrado p’aí” muitas pessoas do povo pensam que é verdade. E as mentiras, repetidas muitas vezes, parecem verdade, sem o sêri.

 

5. O portunhóli e o chapurrêo.

Que será o portunhóli? É uma língua "sabíri" ou "pidgim". O portunhóli é o que falam entre si duas (ou mais) pessoas onde uma é lusófona e a outra hispanofalante. Quer dizêr, os portugueses tentam falar espanhóli e os espanhóis português. E falam algo chamado portunhóli, que é o produto dessas tentativas. Se o portunhóli é qu’rido por eles, atã chega a sêri língua. Se eles nã querem mais o portunhóli, mas tentam aprender a língua do vizinho ou o vizinho a deles, atão o portunhóli morre, acaba, e nã há mais nada que dizêri.

 

E o chapurrêo? O chapurrêo é por exemplo o português falado por José Antonio Camacho, mas o homem, quando estava no Benfica, tentava falar cada vez mais português e menos espanhóli... e ia-o conseguindo, benté que saiu do clube. Chapurrêo é o que ê tento falar quando me encontro com romenos. Chapurrêo é um “quiero y no puedo”. Mas o nosso português, compadre, nem é portunhol nem é chapurrêo.



[i] In Ferdinand de SAUSSURE, Curso de lingüística general (1919), trad. Amado Alonso, Madrid 1987. Refere-se ao galegoportuguês (com o sê dialecto português) e ao neerlandês (com o sê dialecto holandês). Este livro devia mas é ser obrigatório pra todos os estudantes de filologia.

[ii] Manuel ALVAR, “Lengua, dialecto y otras cuestiones conexas”, in Lingüística Española Actual 1 (1979), pp. 5-30.

3 Atençã, que uma coisa é o espanhol das Asturias e outra o asturiano, uma o espanhol de Leão e outra o leonês, uma o português de Miranda e outra o mirandês, e finalmente uma o espanhol da Estremadura e outra o estremenho.

4 Essa palavrinha aparece noutros lugares da península Ibérica. Onde se fala uma língua que não concorda com a frontêra ou com o limite político, já lá vai a palavrinha. Aparece em lugares de Aragão onde se fala catalão, por exemplo.

 

Publicado por AG às 00:10
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Comentário(s):
De olivencalivre a 13 de Agosto de 2008 às 17:50
NOTÍCIA:(Como tenho o Correio electrónico avariado, só assim vos posso mandar esta notícia)

Jornal de Letras,13 de Agosto de 2008, Além Guadiana (Jornal
Quinzenal; é o ÚNICO jornal cultural e literário; a notícia é
IMPORTANTÍSSIMO !)
(PARTICULAR: este jornal, controlado pela Esquerda, mas muito "saramaguista", é o favorito de 80 % da INTELECTUALIDADE PORTUGUESA)

ALÉM GUADIANA é o nome da associação, sem fins lucrativos,
recentemente criada por um grupo de cidadãos em Olivença com o
objectivo de fomentar a cultura portuguesa naquela cidade. O âmbito de
actuação da associação são os concelhos de Olivença (que inclui as
aldeias de São Jorge da Lor, São Bento da Contenda, Vila Real, São
Domingos de Gusmão, São Rafael e São Francisco) e de Táliga,
portugueses até 1801.


De Jamerson Menezes a 28 de Janeiro de 2009 às 15:38
Gostei muito de conhecer este blog. Acho muito importante que se mantenham acessa a chama da cultura, principalmente através do idioma. Confesso que não conhecia o "PORTUGUÊS OLIVENTINO", bem como não conheço Portugal (um dia, quem sabe...) mas além de admirar muito meu idioma, penso ser fundamental conhecer outros "falantes" deste. Parabéns!

Jamerson Menezes - Brasil
De MARCELO a 25 de Maio de 2016 às 15:59
BOM DIA, BOA TARDE OU BOA NOITE A TODOS E TODAS!

MEU NOME É MARCELO, SOU PROFESSOR DE NACIONALIDADE PORTUGUESA QUE LECIONA FORA DE PORTUGAL.

GOSTAVA EU DE SABER SE ALGUÉM DE OLIVENÇA SABERIA DIZER-ME SE A FRASE <
[Error: Irreparable invalid markup ('<miguel [...] purtuguÉsa>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]

BOM DIA, BOA TARDE OU BOA NOITE A TODOS E TODAS!

MEU NOME É MARCELO, SOU PROFESSOR DE NACIONALIDADE PORTUGUESA QUE LECIONA FORA DE PORTUGAL.

GOSTAVA EU DE SABER SE ALGUÉM DE OLIVENÇA SABERIA DIZER-ME SE A FRASE <<MIGUEL DE CERVANTES LLAMÓ LA LUENGA PURTUGUÉSA DE LA LUENGA DULCI>> ESTÁ CORRETAMENTE <<TRADUZIDA>> PARA PORTUGUÊS OLIVENTINO.

MUITO OBRIGADO POR VOSSA ATENÇÃO.
De AG a 7 de Junho de 2016 às 06:25
"Miguel de Cervantes llamó a la lengua portuguesa la lengua dulce" em espanhol. "Miguel de Cervantes chamou à língua portuguesa a língua doce" em português (oliventino e não oliventino).

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