Segunda-feira, 17 de Maio de 2010

Quadras oliventinas (I)

Por uma sugestão de Carlos Luna, seguem-se umas quadras populares oliventinas.

Luna. Abrantes.

 

As primeiras foram publicadas no livro, de Ventura Ledesma Abrantes, O património da Sereníssima Casa de Bragança em Olivença (ed. Álvaro Pinto, Lisboa 1954), pp. 380-385. São versos conhecidos pelos oliventinos em geral, e alguns deles foram levados a gravar pelos Acetre, pelo Grupo de Danças Tradicionales “La Badana”, por Dulce Pontes, etc. A ortografia alentejana empregada é aqui (salvo nalgumas exceções justificadas) a do célebre livreiro oliventino.

 

Ó Vila Real dos coxos,
São Bento dos aleijados,
São Domingos dos bons moços,
São Jorge dos mal talhados

A fonte do Val de Gral
está no alto da (Serra d´O)lor.
(É) água q’a ninguém faz mal,
(e) dali bebe o meu amor.

O meu coração é teu,
o teu é de quem tu queres.
Uma troca faria eu,
lindo amor, se tu quiseres!

Se eu tivesse não pedia
coisa nenhuma a nênguém.
Mas, como não tenho, peço
uma filha a quem a tem.

Daqui para a minha terra
tudo é caminho e chão!
Tudo são cravos e rosas
postos pela minha mão!

Silva verde não me prendas
que eu não tenho quem me solte;
não queiras tu, silva verde,
ser causa da minha morte.

Azêtona pequenina
também vai ao lagar;
eu também sou pequenina
mas sou firme no amar.

Saudades, tenho saudades,
saudades das feiteceiras.
Lembrança das amizades
"Da terra das oliveiras".

A laranja quando nasce
logo nasceu redondinha;
tu tamêm quando nasceste,
nasceste para ser minha.

Na vila de Olivença
não se pode namorar!
As velhas saem ao sol
e põem-se a criticar.

Tenho corrido mil terras,
cidades mais de quarenta,
tenho visto caras lindas,
só a tua me contenta.

Adeus, largo do Calvário
por cima, por baixo não.
Por cima vão os meus olhos,
por baixo, meu coração.

O Monte de Santa Maria
tem vinte e quatro janelas.
Quem me dera ser pombinho
para poisar numa delas.

Esta noite choveu neve
no gargalo do meu poço,

todas as rosas abriram
menos o meu cravo roxo.

Abalei da minha terra,
olhei para trás chorando.
Adeus, terra da minh’alma,
que longe me vais ficando.

Eu sou ganhão da ribeira,
da ribeira sou ganhão,
lavro com dois bois vermelhos
que fazem tremer o chão.

Ó minha mãe, minha mãe,
companheira de mê pai,
eu tamêm sou companheira
daquele cravo que ali vai.

Eu tenho uma silva em casa
que me chega à cantarêra,
busque mê pai quem o sirva
que eu não tenho quem me quêra.

O sol, quando nasce, inclina
nas barrancas do Guadiana.
Eu também ando inclinado
nesses teus olhos, Mariana!

Eu já vi um valentão
à briga c’uma cidade;
logo ao primeiro encontrão
derrubou mais de metade.

Eu sou guarda no “Freixial”
lá nas bandas do Guadiana.
Já matei um pato real
c’uma espingarda de cana.

Quando eu era pequenino,
ainda não sabia andar,
já minha mãe me dizia
"que fino é pra namorar".

Fui à Serra colher trevo,
achei o trevo colhido.
Estou se sim ou não me atrevo
arranjar amor[e]s contigo.

Quem me dera, dera, dera,
quem me dera, dera, dar.
Beijinhos até morrer,
abraços até cansar.

Quando eu principiei a amar
de amores não entendia;
agora já fiquei mestre
daquilo que não sabia.

Cantigas são pataratas,
às vezes leva-as o vento.
Quem se fia de cantigas
é falto de entendimento.

Já lá vai Abril e Maio,
já lá vão esses dois meses,
já lá vai a liberdade
que eu tinha contigo às vezes.

Eu quero bem, mas nã(o) m(e) quer(e)s
dizer a quem quero bem.
Eu quero bem a uma ingrata,
dizê-lo não me convém.

Eu quero contigo passas,
eu quero contigo figos,
eu quero que tu me faças
o que eu fizer contigo.

Margarida, a tua vida
não a contes a nênguém,
que uma amiga tem amigos
e outra amiga amigos tem.

Lindos olhos tem mê par,
ainda agora reparei.
Se reparasses mais cedo,
verias como eu amei.

Meu amor, meu amor,
meu amor, nada é vão.
Eu dou-te a minha vida,
tu dás-me o teu coração.

Os meus olhos com chorar
fizeram covas no chão.
Coisa que os teus não fizeram,
nem fazem, nem farão.

Se eu soubesse q’avoando [= que voando]
alcançava os teus carinhos,
mandava fazer (u)mas asas
de papel encarnadinho.

Toda a vida fui pastor,
toda a vida guardei gado,
tenho uma chaga no peito
de me encostar ao queijado [= cajado].

Pombinha, avoa, avoa [=voa, voa],
que está caçador na horta.
Em pondo a espingarda à cara
logo a pombinha cai morta.

Não esmoreças, cão carocho,
que amanhã tens fartadela,
já morreu o filho mocho,
filho da cabra amarela.

Meu amor, lá de longe,
lá de longe me mandou
um lencinho molhadinho
das lágrimas que chorou.

Camarada, amigo meu,
não vivas apaixonado.
Quem teve a culpa fui eu,
eu é que fui o culpado.

Teu pai e tua mãe não querem,
lindo amor, que eu te logre.
Queiras tu e queira eu,
que com amor nênguém pode.

Quando eu era pequenino,
que jogava o repião [= pião],
davam-me as moças beijinhos,
agora já não me dão...

O meu amor ontê à nôte
a sua vida me contou,
e que s’ia dêtar a um poço.
Se ele vai, eu tamê vou.

Meu amor[i] quer que tenha
juízo e capacidade.
Tenha ele, que é mais velho,
já vai caindo na idade.

Homem alto e delgadinho
é a minha inclinação.
Que aqueles que são baixinhos
nem para ver a Deus são.

Fita verde no chapéu
ao longe mete aparência.
Quantos amores se perdem/
pela pouca diligência.

És branca como o lête,
corada como a cebola.
Amores, quantos quiseres,
casar contigo, chó rola.

Minha mãe ouviu lá fora
tu jurar(e)s devagarinho,
dizer-me que me querias
e roubares-me um beijinho.

Eu prometo voltar breve,
ir de joelhos à cidade
se me saras da doença,
Nosso Senhor da Piedade.

Eu também já fui à festa
e fiz promessas a Deus
de voltar no ano novo
a dançar no São Mateus.

Tenho o coração negrinho
deitado neste teu peito.
não fales alto-baixinho,
assim é que me dás jeitinho.

Eu já não gosto de ti,
tenho o coração sovado.
Tenho agora amores novos,
deixei já os teus cuidados.

Adeus, que me vou embora
pra a terra das andorinhas,
deita cartas no correio
se quiseres novas minhas

O meu amor é aquele
que não tira o chapéu,
passa por mim, não me fala,
mostra-me cara de réu.

(E)striei minha saia nova,
minha blusa, meu vestido.
Levarei tudo pra a cova
se não quer(e)s ser mê marido.

Não posso ser teu marido
ainda que tu digas "sim":
vê lá tu, mê bem querido,
como as coisas são assim.

Se tu souberas bem ler
nos meus olhos o feitiço,
verias como se quer
a paixão ao seu derriço.

Balha [= Baila], [e] não cantes tanto,
que o bailar é espavento,
as cantigas que eu canto
não são cantigas ao vento.

Porque esperas, mê bom moço,
que eu viva tão requeimada?
Só se fores como o poço:
muita água... e não tem nada!

Alto lá, mê bem formoso,
não digas isso a cantar,
és um pau carunchoso,
e não te posso aguantar! [= aguentar, suportar]

Olha bem para o mê peito,
onde está o coração;
vê lá se disto há direito,
diz-me agora: sim ou não!

Acabou-se a brincadêra,
não metas mais a colher [= não digas mais nada].
Bate agora à diantêra, [= saúda militarmente]
que tu vás [= vais] ser minha mulher!

Anda cá para os meus braços
se tu vida queres ter,
que os meus braços dão saúde
a quem (e)stá para morrer!

Os olhos daquela aquela,
os olhos daquela além,
os olhos daquela flor
são os olhos do meu bem.

O meu amor é um cravo
que ao craveiro fui colher,
para o craveiro dar outro
tem de voltar a nascer.

Não há luar mais formoso
que o da noite de São João
nem luz que mais ilumine
o meu pobre coração.

Comprei arrecadas d’oiro
na feira de São Mateus,
lembranças do meu tesoiro/
e dos beijos qu’ele me deu.

António, meu oratório,
meu espelho de vestir;
quem tem amores com António
volta ao céu e torna a ir.

Minha mãe, quando eu casei,
prometeu-me quanto tinha.
Depois que me viu casada
deu-me um saco de farinha!

O coração já está preso,
não cantes mais soledade.
Já o virei do avesso
para curar a saudade.

Já morreu o vil traidor,
pr’os infernos muitos anos;
quis vender o nosso povo
ao poder dos castelhanos.

[Nota de Carlos Luna: referência a um traidor do século XVII, morto por um oliventino, Gaspar Martins.]

Cosmander foi um vilão
ao serviço dos mariolas,
mas teve morte de cão
com sepultura d’esmola.

Era um diabo, um malvado,
sem honra nem coração;
dorme, filho, descansado,
que já morreu esse cão.

ATÉ AQUI, UMA PRIMEIRA PARTE DE QUADRAS OLIVENTINAS.

Publicado por AG às 17:59
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Comentário(s):
De gatinhafofa a 25 de Maio de 2010 às 08:01
Sim senhor quadras mesmo muito bonitas!!! beijinhos ao poeta que as escreveu.

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