Quinta-feira, 20 de Março de 2014

Palavras do autor na apresentação de "Matriz" em Lisboa (17.III.2014)

Discurso de apresentação do livro Matriz, de José Antonio González Carrillo

17 de março de 2014 - Livraria Ferin - Lisboa

 

Estimados amigos

 

Quero começar dando os meus mais sinceros agradecimentos à livraria Ferin, por me dar a oportunidade de aproximar um pouco mais de vocês a História e a Identidade de Olivença. Também, é claro, ao Ex.mo Senhor Ribeiro e Castro, pelo seu apoio incondicional `causa de que a Cultura Oliventina seja difundida por todo o Portugal. A inquietude e a paixão pela minha terra deste bom amigo serve de exemplo de constância e dedicação para quem agora vos fala.

 

Olivença, conhecida como a "a terra das oliveiras", é Cultura, História, é a minha forma pessoal de entender a criação: é uma desculpa constante para olhar para um céu com tintas definidas numa paleta de inconcebível cromatismo.

 

A particularidades mais gerais deste enclave [Olivença] são conhecidas pela grande maioria dos portugueses, mas, no meu modo de entender, ficam sempre ancoradas a definições "tópicas" (isto é, que são lugares comuns habituais) ou excessivamente imprecisas, com a marca de um certo conformismo ou mal entendidos.

 

Olivença coabitou ativamente com Portugal, fez parte do seu tecido administrativo e territorial por um período de mais de cinco séculos; foi uma das praças-fortes mais importantes desta nação [Portugal], sendo dotada então de um património arquitetónico difícil de igualar noutros recantos de Portugal.

 

Desde os inícios do século XIX, e durante duas centúrias, permanece sob administração espanhola, se bem que isto não impediu que a cultura portuguesa evoluísse e permanecesse, mostrando luzes e sombras de formas latente, até que, depois dos anos setenta do século XX, se iniciou um claro retrocesso.

 

Mesmo assim, Olivença, em pleno século XXI, e depois de viver sob uma influência, nalguns casos "complexa", da cultura espanhola, continua a guardar entre as ruas e praças a identidade portuguesa. Exemplos disso são os seus monumentos, que refletem parte do esplendor que o reinado do rei D. Manuel deixou por todo o império português. O mesmo se passa também na sua culinária, nas suas orações, ou nos seus costumes, que surgirão como familiares e próximas a qualquer português que nos visite, principalmente se for alentejano.

 

Mas, se há um fator que realmente faz a diferença e que é tangível em Olivença, é a língua de Camões, tão portuguesa como o português que se fala em Lisboa, em Évora ou na Madeira; um património linguístico de grande riqueza etimológica e antropológica, que deve ser preservado e protegido.

 

Olivença, hoje em dia, luta por encontrar novamente a sua identidade, um novo espaço entre duas culturas. Evita voltar as costas ao passado e constrói futuros com a vontade popular e o sentimento.

 

Os oliventinos voltam a olhar ativamente para Portugal, e é esta nação que tem agora a obrigação de voltar a dialogar Olivença sem recatos, sem medos, com naturalidade, como começaram a fazer muitos oliventinos nos quais também eu me incluo.

 

As provas irrefutáveis desta mudança (que podemos considerar, em termos de análise, como mais ium passo para o encontro de Olivença com Portugal),estão forjadas de muitos prismas, estão patentes em muitos aspetos: por um lado, (Olivença) nutre-se do passado graças a tudo o que foi compilado e herdado, mas também, de uma forma ativa e contemporânea, marca-se, traça-se, um futuro cheio de esperanças e possibilidades para os nossos filhos.

 

Quem der um simples passeio por Olivença em qualquer dia desta primavera, poderá verificar que as ruas recuperaram os seus antigos nomes em português, poderá ver como muitos jovens começam a falar em língua portuguesa sem reparo nenhum (isto é, sem que lhes chamem a atenção para isso),m e, sobretudo, poderá constatar como na epiderme de muitos oliventinos ressurgiu uma consciência bicultural digna de ser analisada num estudo sociológico.

 

O autor [eu] que tem a sorte de apresentar os seus livros hoje em Lisboa quis simplesmente contribuir para este novo renascimento na sua perspetiva particular, com a criação e produção de obras que deem um reflexo desta nova e apaixonante etapa oliventina que estamos a viver, consultando o passado para encontrar respostas no futuro.

 

Os meus livros visam abordar, desde a odisseia oliventina, a própria evolução de Portugal, sempre atuando sobre um "pilar" básico: a expressão gráfica [fotografias, montagens] como uma nova forma de ilustrar e mostrar a História de Olivença, e como uma procura, uma forma de indiretamente conectar com outros públicos, que hoje reclamam novas linguagens na hora de interpretar a sua história e a sua identidade.

 

Nas páginas dos meus livros é "anexado"(utilizado) outro ponto fundamental, que é uma incursão pelo bilinguismo [português e castelhano] nos textos, potenciando de alguma maneira a universalidade que respira Olivença por cada poro da sua pele.

 

Alguns dos meus livros, como Saudade ou Quando Já Não Estivermos tentam procurar, no sentimento pessoal e individual, uma forma de materializar conceitos tão globais como o passar do tempo, a cultura da morte, o esquecimento e a criação artística mais anónima. Como é lógico, não só encontraremos estes conceitos de forma pessoal na cultura e tradições de Olivença, como também em localidades próximas, como Elvas, Redondo ou Sousel, para citar alguns enclaves.

 

Noutros trabalhos, também tentei exaltar a monumentalidade e sumptuosidade de uma Olivença sublime, repleta de edifícios religiosos, com catedrais, conventos, ritos e tradições culturais fundamentais na hora de "desenredar" a personalidade de qualquer português que se preza de o ser. Assim, tive a sorte de editar livros como A Herança Portuguesa nas Confrarias de Olivença, Almas da MagdalenaOlivença Oculta.

 

A minha publicação mais recente, que hoje abordaremos, intitula-se Matriz. Teve a sorte de ser editada pela Associação de Desenvolvimento Comarcal de Olivença (ADERCO), peça fundamental no impulso cultural e social da localidade e da sua comarca. Foi vital também a colaboração de um dos melhores artistas que sem dúvida "entesoura", isto é, é mais um tesouro do meu amado enclave, Augusto Andrade, que me brindou com a possibilidade de ilustrar este livro hoje tornado realidade; igualmente contei com Manuel Jesús Sánchez e Sílvia Nóbrega para a traduçaõ dos textos para o português.

 

Matriz é sinónimo de princípio, de começo, de mãe. Qualquer enclave português tem a sua matriz, e, como indicou no prefácio que tão amavelmente escreveu para este livro João Paulo Oliveira e Costa, "é um espaço privilegiado no contexto de uma localidade. Confunde-se quase sempre com os momentos fundacionais dessa terra. A [igreja] matriz está sempre no centro histórico e está carregada de História, viu tudo, sentiu tudo, conheceu todos os habitantes, viu-os nascer, viver e morrer e conserva a memória de toda a História secular da povoação que tutela e protege. O edifício pode não ser o mesmo que foi construído pelos avoengos que criaram a nova vila em tempos remotos, mas está no mesmo terreno da igreja primitiva".

 

A matriz de Olivença reflete quase todas estas peculiariedades, tal e qual como as sua homónimas. Contemplou todos os períodos históricos transcendentais para Portugal, mas também teve a visão direta da mudança de nacionalidade de Olivença, dos problemas que surgiram, das mudanças de apelidos de muitos oliventinos, das orações com que imploraram os seus "fregueses" durante as guerras que sacudiram a península ibérica independentemente do partido tomado. Foi testemunha muda das bombas que puseram em causa a sua integridade em guerras como as da Restauração ou a da Sucessão, foi "recoletora"(guarida) do seu património religioso, fez o papel de mecenas para salvar talhas que afortunadamente chegaram até aos nossos dias, servindo estas para vincar, realçar, hoje mais ainda, o "tremendo" legado cultural e artístico que deixou a cultura lusa em todos nós, oliventinos.

 

Santa Maria do Castelo, como a conhece popularmente qualquer oliventino, foi uma igreja entre dois períodos. O primeiro, iniciado no século XIII, em que um edifício hoje desaparecido serviu para realizar os primeiros batizados e administrar os sacramentos religiosos aos habitantes que fundaram a vila. Isto até que, no século XVI, esta igreja original ameaçava ruína, e que foi empreendido o projeto de construção do novo templo, este que hoje podemos admirar, mais majestoso e mais de acordo com outra das igrejas chave da História de Portugal e que também podemos admirar em Olivença: Santa Maria Madalena, réplica monumental do Convento de Jesus de Setúbal e "concatedral" do bispado de Ceuta no século XVI, quando a expansão ultramarina de Portugal, graças ao rei D. Manuel e a personagens como Frei Henrique de Coimbra, elevou a nação à sua maior "culminância".

 

O novo templo matriz de Olivença, a nova Santa Maria do Castelo, teria proporções dignas de uma igreja monumental.

 

O templo foi planeado e erguido sob a administração dos Filipes, lá pelo século XVII, refletindo um aspeto austero no seu exterior e participando da simetria estética que procura com a vizinha torre de Menagem de Olivença, a mais alta de toda a fronteira luso-espanhola.

 

Os começos desta nova igreja, sob os auspícios do bispado de Elvas, hoje extinto, foram testemunhas de uma Olivença preparada para ratificar, para apoiar, a conjura e o levantamento em apoio ao rei João IV e para se converter numa das primeiras localidades que lutou por devolver a integridade a Portugal e ao seu território.

 

Se bem que a igreja tenha sido edificada sob a União Ibérica, como disse, apresenta aspetos internos e externos que podemos encontrar em qualquer igreja tipo "salão" de lugares portugueses vizinhos à localidade, como Campo Maior ou Veiros. Encontramos o seu estilo ornamental em muitas igrejas de Portugal, onde azulejos de maçaroca e historiados acrescentados nos séculos XVII e XVIII convivem de forma harmoniosa no tempo junto da talha dourada barroca.

 

Os seus retábulos são majestosos, de proporções difíceis de encontrar, mostrando uma das capelas (o que, sem dúvida, dá maior "identidade" ao interior do templo) uma portentosa árvore de Jessé com mais de 10 metros de altura, a mais imponente que hoje se conserva em todo o mundo. O solo do templo está coberto por lajes(túmulos) de mármore onde se exaltam as famílias e morgados mais importantes de Olivença, apelidos que hoje estão repartidos por todo o Portugal, como os Gamas, Pestanas, Lobos, Cabreiras... etc.

 

Os ritos ainda celebrados na Igreja de Santa Maria do Castelo são portugueses, e as talhas perante as quais os oliventinos rezam foram gravadas por goivas portuguesas. Saíram em procissão durante séculos. Lendas, mitos e celebrações religiosas confluem neste ponto comum chamado Matriz.

 

Os registos de batismo, matrimónio e falecimento dos oliventinos pertencentes a esta paróquia, juntamente com os inventários realizados pelos padres que regeram os seus destinos, continuam em grande parte hoje custodiados em arquivos como o da Torre do Tombo em Lisboa e o distrital de Portalegre.

 

Visitar a Igreja Matriz oliventina é visitar Olivença em si, mas também Portugal. Supõe admirar a identidade de todo um país, com sentimentos "partilhados" e com um imenso eco - talvez vazio - que ainda se pergunta o que aconteceu, o que foi que se deteve no tempo e nas lembranças que guarda ainda este templo e a sua jurisdição.

 

Entender Olivença significa entender Portugal, não é compreensível um sem a outra; se o fizéssemos, íamos mostrar uma nação amputada, carente de todo o sentido. Portugal é a Matriz de Olivença, tal como Santa Maria é a mãe de todos os oliventinos.

 

Olivença e a Igreja Matriz fazem parte da radiografia de todo o império que Portugal foujou nas melhores etapas do seu esplendor. Analisar personagens como Pedro Álvares Cabral, Aires Tinoco ou Caetano José da Silva Souto-Maior (o "Camões do Rossio) passa por conhecer a fundo as vicissitudes desta terra.

 

Contemplar a sua arquitetura e tradições faz parte da viagem interior que qualquer português deve fazer para entender a sua origem, a sua cultura e a sua identidade.

 

Em pleno século XXI, edifícios como Santa Maria do Castelo ou Santa Maria Madalena, instituições ainda ativas como a Santa Casa da Misericórdia de Olivença, características como a linguagem dos seus habitantes ou os ritos ainda preservados e celebrados são ancoragens, laços, que, unido-se, mostram um conjunto patrimonial digno de ser "potenciado".

 

O desafio está agora também nas mãos de Portugal, porque talvez Olivença - procurando um paralelismo, uma metáfora - foi um dos braços que então teve de perder a nação portuguesa para se salvar a si própria. Entender Olivença é descobrir Ventura Ledesma Abrantes, oliventino ilustre que morou muito perto daqui, na rua do Alecrim, e que foi peça chave no desenvolvimento cultural de Lisboa nos meados do século XX; implica conhecer Vicente Lusitano e as suas composições barrocas; Maria da Cruz e o seu doce misticismo imortalizado por Jerónimo de Belém; a morgados que forjaram as conquistas e o esplendor de toda uma nação.

 

Aproximar a cultura lusófona de todos os oliventinos, e, por outro lado, por sua vez, levar a que os próprios portugueses comecem a que todos os portugueses comecem a conviver, com naturalidade, com Olivença, eis algo que converterá o enclave numa referência patrimonial e cultural única em todo o mundo.

 

Este escritor que eu sou sonha, e levanta-se todos os dias a pensar no que Olivença foi, mas também no que poderá chegar a ser. O meu contributo é simples: tornar próxima a cultura oliventina com a minha maneira pessoal de a ver, com os meus livros, com o meu coração, exprimindo sempre o que de mais profunda há em mim.

 

Obrigado a todos pela vossa presença. Espero que gostem dos meus livros.

 

Lisboa, 17 de março de 2014

 

José António Gonzalez Carrillo

 

Sentimo-nos: matrizes
Música: matriz
Publicado por AG às 18:08
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