Terça-feira, 17 de Junho de 2014

"Viagem pela Raia" (Público 15.VI.2014)

Viagem pela raia

(Texto) e (Fotografia)

 

Com o fim da fronteira entre Portugal e Espanha, esfumaram-se guardas, despachantes, funcionários de casas de câmbio e suas famílias. As escolas perderam alunos; os comércios, fregueses; os centros de saúde, utentes. Desapareceu o contrabando e a candonga. Houve quem alertasse para o risco de ver “uma linha de vida transformar-se numa faixa desertada”. Será tudo culpa de Schengen? O que é a fronteira agora?

 

 

Parou o carro — o motor já em Portugal, o depósito ainda em Espanha — e pôs-se a pregar aos peixes: “Vinde cá, peixes, vós da margem direita que estais no rio Douro, e vós da margem esquerda que estais no rio Duero, vinde cá todos e dizei-me que língua é a que falais quando aí em baixo cruzais as aquáticas alfândegas, e se também lá tendes passaportes e carimbos para entrar e sair.”

 

Com aquele “sermão”, iniciou José Saramago a sua Viagem a Portugal. Poderia ter parado e pregado a peixes de outras “confundidas águas”. A fronteira luso-espanhola estende-se da foz do rio Minho, a norte, à foz do rio Guadiana, a sul. São 1214 quilómetros de uma linha em grande parte líquida.

Já nenhum guarda lhe pediria passaporte. A 17 de Junho de 1984, faz agora 30 anos, Bélgica, Alemanha, França, Luxemburgo e Países Baixos reuniram-se para definir as condições necessárias à livre circulação. Um ano depois, a bordo do Astrid, no rio Mosela, assinavam um primeiro acordo. Um outro, mais complexo, viria a ser firmado em 1990, em Schengen, no Luxemburgo. Quando entrou em vigor, em 1995, já Portugal, Espanha, Itália e Grécia dele faziam parte.

 

[...]

 

Cem marcos por colocar

 

Não dá para seguir rente à fronteira. As estradas vão por dentro, só de longe a longe correm para o país vizinho. Em toda a linha, fortes, fortins e outras estruturas protectoras remetem para os tempos em que o traçado era instável. Apenas no século XVI se tornou a fronteira menos militarizada, menos defensiva, mais comercial, mais focada no controlo de pessoas e bens. Não estava Portugal posto em sossego: caiu-lhe ainda em cima o domínio filipino (1580), teve de bater-se pela restauração da independência (1640) e de entrar na chamada “Guerra das Laranjas” (1801).

 

Durou pouco a última investida espanhola. “Haverá paz, amizade e boa correspondência entre Sua Alteza Real o Príncipe Regente de Portugal e dos Algarves, e Sua Majestade Catholica El Rei de Hespanha, assim por mar como por terra, em toda a extensão dos seus Reinos e Domínios”, prometeu o Tratado de Badajoz (1801). Guerra entre ambos não tornou a haver. Olivença, essa, ficou do lado de lá.

 

Permanece incompleta a fixação da linha da fronteira luso-espanhola resultante do Tratado dos Limites (1926). Entre o rio Caia e a Ribeira de Cuncos, na faixa alentejana paralela a Olivença, continuam por fixar cem marcos. Sinal de que, pelo menos para a diplomacia, há ali assunto pendente. Yolanda e João Tomé conheceram-se no território do grande diferendo. Agora, Olivença é uma cidade airosa, com casas caiadas de branco a ladear ruas com nomes em castelhano e em português, a 22 quilómetros de Elvas. Naquela altura, sem a Ponte Ajuda, era uma cidade airosa, com casas caiadas de branco a ladear ruas com nomes em castelhano, a 46 quilómetros de Elvas.

 

João gostava de ir ao outro lado ver as moças. Achava que eram mais vistosas, desinibidas, simpáticas. Não faziam carranca quando ele lhes dizia: “Hola guapa!” Sorriam. Decorria 1986. Portugal e Espanha tinham acabado de entrar na Comunidade Económica Europeia. Os guardas estavam mais permissivos. Ele contava 21 anos; ela, 15 e dançavam ambos na pista da Max Power.

 

Diz o ditado que “de Espanha nem bom vento nem bom casamento”. Não se pense que em Espanha é melhor a expectativa. Corriam “estórias” de portugueses casados que tinham seduzido espanholas solteiras. As raparigas de lá eram ensinadas pelas famílias a evitar os rapazes de cá.

 

O pai de Yolanda torceu o nariz quando ela lhe anunciou o namoro com um português alto e bem-parecido. Quereria o português aproveitar-se da inocência da sua filha? A mãe de João torceu o nariz quando ele lhe quis apresentar a namorada, uma espanhola esguia, de exótica beleza. Achava que as espanholas nada sabiam o que fazer numa cozinha. Que vida teria com uma mulher dessas?

 

Estavam enganados o sogro espanhol e a sogra portuguesa. A cozinha em Olivença é híbrida, tem muito de Alentejo — as migas, as sopas de cação, a caldeirada de peixe. E ei-los, ela na cozinha e ele ao balcão do café-restaurante Cidade Nova, à saída de Elvas. Aos 50 anos, ele ainda a olha embevecido.

 

http://www.publico.pt/portugal/noticia/viagem-pela-raia-1639647

Sentimo-nos: raianos
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Publicado por AG às 09:56
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