Sempre gostei de caminhar além Guadiana, junto à velha ponte manuelina da Ajuda, um lugar que sinto a estranha necessidade de reencontrar uma e outra vez. A ponte truncada, as pedras de xisto desgastadas pela passagem milenária da água procurando o mar e os juncos que beijam a beira fazem parte daquela paisagem dormida há muitos anos.
Naquela tarde de Verão passeava com a minha família. Nenhuma alma mais na tranquila paragem do Guadiana. A noite estava próxima e, ao fundo, podíamos ver a silhueta da ponte com o Sol a pôr-se ao fundo. Olhávamos comprazidos aquela magnifica cena quando o meu filho fez-me uma pergunta surpreendente: “Papá, ¿qué hace aquel elefante en lo alto del puente?”. “El elefante… ¿qué elefante?, perguntei-lhe com estranheza. “Aquél, aquél”, contestou-me apontando para o alto da ponte.
Observei–o de novo e foi então quando… sim!, adivinhei a sua silhueta recortada pelo céu laranja do entardecer. Ali estava aquela grande figura desenhada –quem diria casualmente– pela torre derrubada da ponte. Expliquei-lhe então que não se tratava de um elefante mas sim de uma velha ruína que enganava os olhos. Porém, ele, muito seguro da sua percepção, quis-me sacar do meu erro e replicou-me, sem concessão à dúvida, “Que no, papá, ¿no lo ves?. Respondi-lhe de maneira afirmativa para não defraudar a sua ilusão e disparei, com a minha câmara fotográfica, para levar uma lembrança daquela curiosidade.
Continuámos o passeio. A conversa com o meu filho mudou para outras coisas: os peixes que saltavam junto à beira, as formigas que levavam sementes à sua despensa… Mas eu ainda estava a dar voltas àquela questão do elefante. Comecei a pensar que tal vez era ele que estava certo. Como era possível, depois de tantas caminhadas por aquele lugar, não ter descoberto o elefante?, depois de ter observado tantas vezes as gravuras dos pedreiros, as plantas que crescem nos muros, os pequenos detalhes da ponte, não ter reparado naquele animal tão grande mesmo no meio da calçada? Pensei então que só através dos olhos de um menino é que podemos ver as coisas evidentes que os mais velhos não percebemos ou, talvez, esquecemos a maneira de perceber.
Na procura de alguma razão, não encontrava o sentido de um elefante naquele lugar. Nem o Guadiana é um rio da savana africana nem Aníbal escolheu rota tão estranha para a sua campanha contra Roma. Fosse como fosse, ali estava ele, com a sua presença indiscutível, quase insolente. Continuava imóvel, como se estivesse à espera de algo. Olhando para Elvas, de costas para Olivença.
Cheguei a pensar que já tinha encontrado a explicação daquela ponte rota: há tempo que o elefante quis passar a ponte e os arcos não puderam suportar o peso do animal, ficando assim, derrubados, para sempre. Talvez tinha a esperança, como já sucedeu após outras destruições, de ver chegar os pedreiros, instalar os andaimes e começar a fazer de novo os arcos. Mas esta vez ninguém chegou para devolver a vida à ponte, só os corvos e corujas a construir os ninhos nas feridas dela.
Pus também a hipótese de aquele grande animal ser um elefante elvense que visitava a sua elefanta em Olivença, até que um dia uma grande cheia evou vários arcos da ponte e, também, qualquer possibilidade de reencontro. Que terá acontecido com ela?, terá esgotado a sua espera e encontrado algum outro companheiro naquela parte do rio?, terá esquecido já o seu amigo ou tal vez ainda conserve um pouco de saudade?.
Era já tarde. Vénus começava a brilhar no céu e a obscuridade apoderava-se do paisagem confundindo as formas. Um “vámonos ya” interrompeu as minhas reflexões. Caminhávamos de volta para o carro e aquela silhueta do nosso elefante começava a transformar-se num bizarro e irreal montão de pedras. Minutos depois, a minha cabeça estava já em qualquer outro assunto quotidiano.
Semanas depois, tinha aquilo quase esquecido quando uma notícia me devolveu à memória a lembrança do gigante da ponte. Soube há pouco que Saramago tinha escrito um novo romance, A Viagem do Elefante, um conto sobre a historia da viagem épica de um elefante, chamado Salomão, de Lisboa a Viena. Fiquei tão surpreendido como satisfeito porque achei ter encontrado uma nova explicação da história daquele animal. Pensei que talvez aquele elefante lisboeta, na sua longa caminhada, desejou abandonar Portugal por Olivença e, ao chegar ao rio Guadiana, encontrou a ponte da Ajuda derrubada. Provavelmente ficou decepcionado e continuou ali, à espera. E, assim, ao longo de muito anos, até os nossos dias. Ninguém lhe explicou que a ponte fora destruída pelos homens, nem as complexas historias de guerras e fronteiras… mas para quê? Provavelmente o elefante nem sabia nem tinha intenções de saber destas questões, só o desejo de continuar o seu longo caminho por Olivença.
Propus-me então que tinha que ler esse livro, conhecer a aventura vital do protagonista e saber se, finalmente, chegou ao final da sua viagem, a Viena. Se não chegou, terei então a certeza de que o elefante da ponte da Ajuda é o nosso amigo Salomão, que ainda está ali, desconcertado. E, se fosse o caso, então escreverei ao autor para lhe dizer: “Senhor Saramago, aqui está o seu teimoso elefante. Se o deseja pode escrever uma segunda parte da historia, e começar na Ponte de Ajuda. Saiba que o seu Salomão pode finalmente cumprir o desejo de vir a Olivença, a cruzar através da nova ponte da Ajuda, e continuar a sua aventura até Viena. E, se quiser reencontrar-se com ele, talvez gostaria de acompanhá-lo na sua primeira jornada, da ponte da Ajuda até a nossa vila. Decerto que Olivença gostaria de receber a visita de duas personalidades tão invulgares”.
Joaquín Fuentes
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