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ALÉM GUADIANA

Associação Além Guadiana (língua e cultura portuguesas em Olivença): Antigo Terreiro de Santo António, 13. E-06100 OLIVENÇA (Badajoz) / alemguadiana@hotmail.com / alemguadiana.com

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Reportagem sobre o nosso português

AG, 26.01.09

PÚBLICO, 26 de Janeiro de 2009, grande reportagem (divulgado na RDP) sobre o português de Olivença


(GRANDE FOTOGRAFIA DA "CARREIRA")

Em pouco mais de dois séculos de domínio espanhol quase desapareceu o dialecto luso.


Só os mais idosos é que fazem uso do idioma, mas apenas em ambiente familiar


O último relatório do comité de peritos do Conselho da Europa, que faz um balanço crítico da aplicação da Carta Europeia das Línguas Minoritárias ou Regionais, aprovada em 1992, recomendou no final de 2008 que os naturais de Olivença devem ter acesso à aprendizagem da língua lusa. O documento defende "a protecção e promoção do português oliventino". Para evitar que a ligação ao dialecto luso não se perca, o Conselho da Europa propõe o desenvolvimento de um modelo de aprendizagem do dialecto português.

No entanto, e pese embora as melhorias verificadas no domínio da aprendizagem, constrangimentos de natureza social e cultural, sobretudo a pressão exercida pelo castelhano, impedem a fluência do idioma no território que os espanhóis ocupam desde 1801, conforme tem sido denunciado por vários investigadores portugueses. A este propósito, Maria de Fátima Matias, docente na Universidade de Aveiro, no seu trabalho de investigação com o título "A Agonia do Português em Olivença", publicado na Revista de Filologia Românica (2001), conclui que, decorridos pouco mais de 200 anos da ocupação espanhola, esta contribuiu fortemente para o progressivo "desconhecimento do suporte escrito da língua portuguesa". Actualmente, o português oliventino está "linguística e socialmente desprestigiado" por estar "ausente da instituição escolar, da administração pública, da igreja e dos media". Rapidamente foi identificado com "a ruralidade e o analfabetismo, como se fosse o eco do passado", considerado um "chaporrêo", uma "forma corrupta de falar, uma linguagem desajeitada" realça Fátima Matias, frisando que a rejeição do português atingiu "maior veemência no sexo feminino", em sintonia com estudos similares que apresentam as mulheres na liderança da adesão à língua oficial. Também o linguista Manuel Jesus Sánchez Fernández, no seu trabalho "Português de Espanha. Exemplo: O de Olivença", editado em 2004, reconhece que o idioma luso "está em risco". A este propósito, a Carta Europeia considera que a utilização de uma língua regional ou minoritária na vida privada e pública "constitui um direito imprescritível, em conformidade com os princípios contidos no Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos das Nações Unidas, e de acordo com o espírito da Convenção para a Protecção dos Direitos do Homem e das Liberdades". Apesar da identidade que sobrevive entre os poucos mais de 12 mil habitantes, que vivem numa área com 463 km2 na região de Olivença, hoje constituída pelos concelhos Olivença e Táliga, são muitos poucos os que hoje sabem falar português. Só a população com mais de 75 anos de idade conserva o idioma. "São os idosos os que conhecem e entendem a língua portuguesa", constata o alcaide Manuel Cayado. O autarca não encontra razões para o Conselho Europeu fazer recomendações sobre o ensino do português em Olivença, lembrando que na sua localidade leccionam-se, há vários anos, programas para preservar e defender o "idioma dos nossos idosos". O propósito que preside à aprendizagem do português é tentar "travar a fluência do 'portunhol'" , salienta Cayado, frisando que a língua é ensinada como opção nos colégios, públicos e privados, no Instituto e na Universidade Popular de Olivença. No colégio público há 630 alunos e a todos eles é leccionado o português. E no Colégio Sagrado Coração, privado, dos 643 alunos, 252 aprendem a língua de Camões. E os professores que o leccionam são portugueses. O Conselho da Europa estende a sua preocupação sobre a subalternização das línguas minoritárias ou regionais ao catalão e ao aragonês em Aragão, ao berbere em Melilla, ao árabe em Ceuta, ao galego em Castela e Leão e ainda ao romani e o caló, dialectos comuns nas comunidades ciganas.

Não só a língua identifica o passado português de Olivença

Leite de Vasconcelos classificou o português de Olivença como uma variedade "dialectal alentejana". Para Lindley Cintra, a língua que ali se fala faz parte dos dialectos do Centro-Interior e do Sul de Portugal. Se a estrutura linguística não deixa dúvidas aos mais eminentes estudiosos portugueses, os testemunhos do seu passado luso destacam-se pela sua abundância e individualidade: Olivença não se parece com qualquer outra cidade da região extremenha. Reconhece-se a calçada típica portuguesa, a arquitectura manuelina aparece em cada frontaria das igrejas e até a entrada da câmara não se "libertou" do testemunho deixado pelo rei venturoso, que se projecta ainda com particular evidência nas torres de forma quadrada do castelo erguido na cidade. As indicações das ruas, as fachadas das lojas e até as telhas que cobrem as habitações clarificam as influências recebidas. Se os passos do visitante procurarem mais sinais que sustentem a paternidade lusa, a parte velha revela-se pela limpeza e a alvura das paredes das casas, à semelhança de qualquer terra alentejana. Olivença integrou-se definitivamente no território português em 1297, pelo Tratado de Alcanizes, celebrado entre D. Dinis e D. Fernando IV de Castela, mas está ilegalmente ocupado por Espanha desde que foi celebrado entre Portugal, a Espanha e a França, a 6 de Junho de 1801, oTratado de Paz de Badajoz, perante a ameaça de invasão das tropas
francesas estacionadas em Ciudad Rodrigo, na sequência da desiganada Guerra das Laranjas. A situação mantém-se desde então e apesar das determinações internacionais (designadamente o Tratado de Viena de 1815) e dos próprios compromissos assumidos pelo Estado espanhol. Portugal não reconhece a Espanha a soberania sobre o território de Olivença. Por esse facto, nunca foram colocados 100 marcos na delimitação fronteiriça entre os dois países. C.D.

 

Nota do blogue:

É exagerado dizer que só os oliventinos de 75 anos ou mais é que falam português. Pelo menos os oliventinos das aldeias mais novos têm uns 65 anos.