Segunda-feira, 20 de Maio de 2019

Até sempre (morte da associação Além Guadiana [2008-2019])

Até sempre

Há onze anos, na primavera de 2008, um grupo de pessoas, unidas pelas mesmas preocupações e sensibilidades, decidiu dar vida a um novo movimento cultural em Olivença, que batizámos com o nome de Além Guadiana.

 

Para aqueles que tínhamos vivido uma infância ouvindo falar português naturalmente nas nossas ruas e praças, para os que ainda tivemos a sorte de respirar uma cultura popular, espontânea e viva que impregnava tudo, era muito triste para nós contemplar indiferentes o processo de desaparecimento de uma língua e uma cultura imaterial de muitos séculos que, afinal de contas, era a perda da nossa própria identidade. É assim que muitas coisas morrem, lentamente, sem barulho, sem provocar nenhuma reação, até que um dia passam a formar parte de um tempo pretérito.

Alguma coisa se tinha que fazer. E assim nasceu o Além Guadiana, quase com uma sensação de urgência, um grupo de pessoas determinado a remar contra a lógica da inércia, para pôr em pé o nosso património e, especialmente, a nossa cultura intangível. E para tornar em realidade a expressão "terra de duas culturas", que parecia bonita, mas cada vez mais vácua.

É impossível concentrar em poucas linhas os milhares de horas dedicadas por esta associação a um trabalho que tem sido constante e intenso, focado em duas vertentes, valorizar a nossa herança cultural portuguesa e criar pontes com o mundo lusófono, com uma transversalidade que levámos à língua, à literatura, à música, ao teatro, ao setor empresarial, à arte, à história, à gastronomia, ao artesanato, ao desporto, ao lazer, às associações, à igreja, às relações humanas e institucionais, ao voluntariado e muitas outras facetas.

Eis o nosso trabalho, do qual deixámos vários exemplos nas diferentes edições da Lusofonias, esse grande espaço cultural dedicado ao mundo lusófono; as diversas jornadas dedicadas à língua portuguesa com a participação de linguistas,  universidades e do Conselho da Europa; o mercado de velharias e antiguidades no centro histórico da cidade; a dupla toponímia das ruas e praças de Olivença e Táliga; o pedido para que o Português em Olivença seja declarado ‘Bem de Interesse Cultural’; Cursos de português e palestras de sensibilização realizados nas freguesias; a criação e dinamização de uma Comissão com a participação das escolas, da Câmara Municipal, da Junta de Estremadura e de Além Guadiana para promover um Plano Especial para a Língua Portuguesa em Olivença; a elaboração de um estudo com compilação sonora sobre o português oliventino; a participação em numerosas obras audiovisuais; as colaborações com as escolas; os concertos de fados que animavam as noites; os encontros de poetas portugueses e espanhóis; as inúmeras iniciativas culturais apresentadas à Câmara Municipal e aos representantes institucionais, como "Olivença, Cidade de Museus" ou "Propostas para Olivença e Táliga".

Foram muitas idas e vindas a Lisboa e outras cidades portuguesas, criando laços com as pessoas e entidades do âmbito cultural, intelectual e institucional: projetos conjuntos com associações lusófonas, como "Do Imaginário", "Aldeias do Alentejo" ou "Conexão Lusófona"; exposições na Casa do Alentejo; reuniões com o Sporting Clube de Portugal; visitas à Assembleia da República; ou a participação na Feira do Livro de Lisboa no dia dedicado a Olivença.

As pessoas não são eternas e nem Além Guadiana emergiu com uma vocação para o ser. A nossa associação termina um caminho no qual contribuímos de forma altruísta com todo o nosso compromisso, esforço e coração. Fica na nossa memória as maravilhosas recordações desta etapa, com o enriquecimento pessoal, amizades criadas e com a memória de todos os membros e simpatizantes da associação, incluindo aqueles que já não se encontram entre nós.

O nosso percurso acabou em fevereiro deste ano por causa da impossibilidade de conciliar os níveis de compromisso da associação com a nossa vida pessoal. Mas, acima de tudo, porque o nosso trabalho de sensibilização da sociedade oliventina atingiu o seu pico. As iniciativas que Olivença precisa para apostar no biculturalismo já não estão nas nossas mãos ou nas nossas competências. Além Guadiana percorreu um trecho da viagem, mas a rota deve ser continuada por outros. E tudo depende da vontade e da ação das instituições, das escolas, das empresas e dos cidadãos. Não é hora de fazer um balanço do que Além Guadiana contribuiu para a nossa paixão, Olivença. O tempo dirá se as sementes que um dia plantámos marcaram um ponto de inflexão ou se, pelo contrário, a língua portuguesa e parte do nosso património imaterial irá a caminho do desaparecimento.

Gostaríamos apenas de terminar com uma mensagem muitas vezes repetida: o património cultural de Olivença é único na península Ibérica pela sua dimensão histórica, cultural e simbólica, com todos os ingredientes para ser um exemplo europeu. Promover as suas duas culturas é abrir portas, impulsando a sua singularidade e, ao mesmo tempo, abrir numerosas janelas no mundo globalizado em que vivemos. Mas, ao mesmo tempo, é a sua melhor ferramenta para o desenvolvimento económico, com recursos espetaculares para impulsionar o turismo, o lazer, o comércio e os negócios em geral. Apostar no seu passado é apostar no seu futuro, porque estamos convencidos de que a nossa terra tem enormes oportunidades de desenvolvimento aproveitando os seus recursos culturais. E embora o trabalho que as instituições possam fazer em Olivença, Espanha e Portugal seja fundamental, no final tudo depende da vontade dos Oliventinos. Olivença será o que ela quiser ser.

Queremos agradecer a todas as pessoas que simpatizaram com Além Guadiana, e a boa receção que os nossos representantes institucionais tiveram connosco durante este tempo todo. E a todas as nossas amizades do mundo da lusofonia.

Até sempre.

 

Hasta siempre

Hace once años, en la primavera de 2008, un grupo de personas, unidas por las mismas inquietudes y sensibilidades, decidimos dar vida a un nuevo movimiento cultural en Olivenza, que bautizamos como Além Guadiana.

Para quienes habíamos vivido una infancia escuchando hablar portugués de manera natural en nuestras calles y plazas, para quienes aún tuvimos la suerte de respirar una cultura popular, espontánea y viva que todo lo impregnaba, nos resultaba muy triste contemplar inmutables el proceso de desaparición de una lengua y una cultura inmaterial de muchos siglos que, al fin y al cabo, era la pérdida de nuestra propia identidad. Es así como se mueren muchas cosas, lentamente, sin ruido, sin despertar cualquier reacción, hasta que un día se convierten en pasado.

Algo había que hacer. Y así nació, casi con sensación de urgencia, Além Guadiana, un grupo de personas decididas a remar contra la lógica de la inercia, para poner en pie nuestro patrimonio y muy especialmente nuestra cultura intangible. Y para hacer realidad una expresión, “tierra de dos culturas”, que nos parecía hermosa pero cada vez más vacua.

Es imposible concentrar en unas líneas las miles de horas dedicadas por esta asociación a una labor que ha sido constante e intensa, y centrada en dos vías, valorizar nuestra herencia cultural portuguesa y crear puentes con el mundo lusófono, con una transversalidad que hemos llevado a la lengua, la literatura, la música, el teatro, la empresa, el arte, la historia, la gastronomía, la artesanía, el deporte, el ocio, las asociaciones, la iglesia, las relaciones humanas e institucionales, el voluntariado y tantas otras facetas.

Ahí está nuestra labor, de la que dejamos varios ejemplos en las varias ediciones de Lusofonías, ese gran espacio cultural dedicado al mundo lusófono; las diversas jornadas dedicadas a la lengua portuguesa con participación de lingüistas, universidades y el Consejo de Europa; el mercado de velharias e antiguidades en el casco antiguo de la localidad; la doble toponimia de las calles y plazas en Olivenza y Táliga; la petición para que el portugués en Olivenza sea declarado Bien de Interés Cultural; los cursos de portugués y las charlas de sensibilización realizadas en las aldeas; la creación y dinamización de una Comisión con la participación de las escuelas, el ayuntamiento, la Junta de Extremadura y Além Guadiana para propiciar un Plan Especial para la Lengua Portuguesa en Olivenza; la elaboración de un estudio con recopilación sonora sobre el portugués oliventino; la participación en numerosos trabajos audiovisuales; las colaboraciones con los colegios; los conciertos de fados que amenizaron las noches; los encuentros de poetas portugueses y españoles; las numerosas iniciativas culturales presentadas al ayuntamiento y representantes institucionales, como “Olivenza, Ciudad de Museos” o “Propuestas para Olivenza y Táliga”.

Fueron muchas las idas y venidas a Lisboa y a otras localidades portuguesas, creando vínculos con personas y entidades del mundo cultural, intelectual e institucional: proyectos comunes con asociaciones lusófonas como “Do Imaginário”, “Aldeias do Alentejo” o “Conexão Lusófona”; exposiciones en la Casa do Alentejo; reuniones con el Sporting Clube de Portugal; visitas a la Asamblea de la República; o la participación en la Feria del Libro de Lisboa en el día dedicado a Olivenza.

Las personas no somos eternas, y tampoco Além Guadiana surgió con vocación de serlo. Nuestra asociación termina un camino en el que hemos aportado de manera altruista todo nuestro compromiso, esfuerzo y corazón. Nos quedamos con los maravillosos recuerdos de esta etapa, con el enriquecimiento personal, con las amistades creadas y con el recuerdo de todos los socios y simpatizantes de la asociación, incluyendo aquellos que ya no están con nosotros.

Nuestro recorrido terminó en febrero de este año por la imposibilidad de conciliar los niveles de compromiso de la asociación con nuestra vida personal. Pero sobre todo porque nuestra labor de sensibilización de la sociedad oliventina han tocado su techo. Las iniciativas que necesita Olivenza para apostar por la biculturalidad ya no están en nuestras manos ni en nuestras competencias. Além Guadiana ha caminado un trecho del trayecto, pero el recorrido lo deben continuar otros. Y todo depende de la voluntad y la acción de las instituciones, las escuelas, las empresas y la ciudadanía. No es momento de hacer balance de lo que Além Guadiana ha aportado a nuestra pasión, Olivenza. El tiempo dirá si las semillas que un día plantamos supusieron un punto de inflexión o si, por el contrario, la lengua portuguesa y parte de nuestro patrimonio inmaterial seguirá camino de su desaparición.

Simplemente nos gustaría acabar con un mensaje muchas veces repetido: el patrimonio cultural de Olivenza es único en la Península Ibérica por su dimensión histórica, cultural y simbólica, con todos los ingredientes para ser un ejemplo europeo. Promover sus dos culturas es abrir puertas, impulsando su singularidad y al mismo tiempo abriendo numerosas ventanas en el mundo globalizado en que vivimos. Pero a su vez es su mejor herramienta de desarrollo económico, con recursos espectaculares para impulsar el turismo, el ocio, el comercio y la empresa en general. Apostar por su pasado es apostar por su futuro, pues estamos convencidos de que nuestra tierra tiene enormes oportunidades de desarrollo aprovechando sus recursos culturales. Y aunque es fundamental la labor que puedan hacer las instituciones en Olivenza, España y Portugal, al final todo depende de la voluntad de los oliventinos. Olivenza será lo que quiera ser.

                                                                                

Desde aquí queremos dar las gracias a todas las personas que simpatizaron con Além Guadiana, a la buena receptividad que durante este tiempo tuvieron nuestros representantes institucionales. Y a todas nuestras amistades del mundo lusófono.

Hasta siempre.

 

Publicado por AG às 19:46
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