Apesar da distância, meninas trajadas de branco, levando colares e coroas de flores silvestres, comprovaram que uma tradição milenar é comum às duas comunidades.
A festa das Maias, que se realizou no último sábado, foi diferente das que têm sido realizadas em Beja desde que a Associação para a Defesa do Património Cultural da Região de Beja (adpBEJA) retomou a organização do evento nos anos 80: as meninas de Olivença juntaram-se às vizinhas alentejanas.
O dia estava quente, sem neblina ou nuvens passageiras que ocultassem o céu azul. É Primavera, mas os termómetros já chegam os 32 graus. Pelas 9h00, começam a chegar as primeiras Maias, envergando as vestes brancas. Os colares e coroas bordadas com flores silvestres (malmequeres amarelos e branco, giestas, pétalas de papoilas) que as irão adornar são preparados pelas mães e pelas avós, replicando alguns pormenores do culto religioso que, na antiga Roma, celebrava, no mês de Maio, o despertar da natureza e a fertilidade.
João Cataluna anima o local da festa tocando acordeão e cantando temas do reportório regional. Vendem-se flores naturais e há quem distribua, com palavras de simpatia, a giesta do campo, malmequeres amarelos e brancos.
Uma senhora ensaia um grupo de Maias: “Vá! Vamos lá mais uma vez, até ficar certo: Um tostanito para a Maia que não tem saia”. Enquanto isso, a avó Rosária ajuda a filha a preparar o toucado de flores que a neta, com dois anos, vai usar mas “a birra da moça” está a dificultar a tarefa. “Temos que nos despachar. Estão a chegar umas espanholitas muito bonitas de Olivença”, avisa outra avó, mesmo ao lado, recomendando às netas: “ponham essa cara bonita com um sorriso”.
Os “Mocinhos em Cante”, grupo coral formado por crianças do ensino básico, já começaram a cantar a “Padeirinha do meu coração”. Seguem as orientações do professor Paulo Colaço, que os acompanha à viola campaniça.
Com algum atraso, chega a delegação de Olivença composta por 120 pessoas. Metade são crianças e duas dezenas delas trajam as vestes brancas das Maias. “Esperávamos um autocarro, aparecem-nos dois à frente de um cortejo com mais uma dúzia de automóveis”, diz ao PÚBLICO Florival Baiôa, presidente da adpBEJA, ainda surpreendido pela forma como a comunidade oliventina encarou a sua deslocação a Beja “com grande consideração e afecto”, observa.
Vêm para dançar e cantar. Trazem acompanhamento musical com o Grupo de Danzas de Olivenza La Encina e as crianças apresentam-se muito coloridas, a lembrar os trajes tradicionais do Minho e da Nazaré. A sonoridade das suas interpretações musicais e as danças fazem lembrar a Moda das Saias do Alto Alentejo ou o Fandango ribatejano. Apesar das semelhanças, os oliventinos não alimentam dúvidas: “Nós somos e sentimo-nos espanhóis mas gostamos muito da nossa história”, explica ao PÚBLICO Maria Rosa, que coordena as actuações musicais e as danças das Maias do outro lado da fronteira.
Na resposta a uma pergunta que se tornou constante e por vezes impertinente - “vocês sentem-se portugueses ou espanhóis” -, os oliventinos respondiam: “Somos filhos de Espanha e netos de Portugal”. “É o nosso sentimento”, acrescenta Maria Rosa, em português fluente, adiantando que, à semelhança das Maias de Beja, as meninas de Olivença “também vestem de branco para comemorar a Primavera e usam as flores do campo para que a tradição não se perca”. E até pedem uma “esmolinha para a Maia que não tem dinheiro como em Beja”, compara.
Florival Baiôa limpa o suor do rosto que já revela cansaço. “Ao todo juntámos 60 Maias”, o maior número desde que foi retomada a festa das Maias em Beja. “Damos continuidade a 2000 anos de tradição”. Recentemente foi descoberto em Beja um fragmento que se supõe ser de um templo dedicado à deusa Maia.
A adpBEJA fez uma pesquisa para saber qual a extensão da tradição das Maias na Europa e em Portugal. Em quase toda a parte, comemora-se apenas com a colocação de uma coroa de flores na porta. “Só em Olivença é que a tradição se identifica com as festividades que se realizam em Beja”, explica Baiôa, reconhecendo que “a delegação de Olivença deu uma alegria muito grande às comemorações”.
A profusão de flores silvestres foi outro dos propósitos associado à comemoração das Maias. “Fazer com as pessoas saiam de casa e vão para os campos apanhar flores para fazer as coroas e os colares das Maias”, sublinhou o presidente da adpBEJA.
A arqueóloga Filomena Barata salienta que “ainda hoje as Maias se podem considerar um dos rituais mais expressivos do ponto de vista da história religiosa antiga” que permaneceu, segundo alguns estudiosos, “sem grandes alterações desde o século V”.
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